Praticamente todos os dias chega um novo doente
Chegam com histórias diferentes, mas quase todas têm algo em comum. Há poucos dias trabalhavam, conduziam, passeavam ou brincavam com os filhos e os netos. Hoje precisam de ajuda para se levantarem da cama, para caminhar, para vestir uma camisola ou até para dizer o nome de quem amam.
Enquanto médica fisiatra, acompanho diariamente pessoas que procuram recuperar aquilo que o Acidente Vascular Cerebral (AVC) lhes retirou: o movimento, a comunicação, a independência e a confiança. Ao longo dos anos vi pessoas voltarem a andar, a escrever, a conduzir, a trabalhar ou simplesmente a conseguirem novamente abraçar a família. Mas também aprendi uma verdade que nunca muda.
Muitos destes AVC poderiam ter sido evitados ou ter tido consequências muito menos graves se os fatores de risco estivessem controlados e os primeiros sintomas tivessem sido reconhecidos imediatamente.
É por isso que este artigo fala de três momentos fundamentais.
Antes do AVC: prevenir. Durante o AVC: agir rapidamente. Depois do AVC: reabilitar.
O AVC continua a ser um enorme problema de saúde pública
O AVC continua a ser uma das principais causas de morte em Portugal e a principal causa de incapacidade adquirida no adulto.
Todos os anos, cerca de 25 000 portugueses sofrem um AVC. Isto significa que, em média, mais de 70 pessoas por dia iniciam um dos momentos mais difíceis das suas vidas. Apesar dos enormes avanços da medicina, milhares de pessoas continuam a ficar com limitações que alteram profundamente a sua autonomia e a qualidade de vida. No entanto, existe uma mensagem de esperança.
Hoje sabemos que muitos AVC podem ser prevenidos e que, quando o tratamento é iniciado rapidamente, é possível reduzir significativamente as sequelas.
O que é um AVC?
O cérebro necessita de um fornecimento constante de sangue para receber oxigénio e nutrientes. Quando esse fluxo sanguíneo é interrompido, as células cerebrais deixam de receber oxigénio e começam rapidamente a morrer. É isso que acontece durante um AVC. Existem dois tipos principais.
AVC isquémico
Representa cerca de 80 a 85% dos casos. Ocorre quando uma artéria cerebral fica obstruída por um coágulo, impedindo a chegada de sangue a uma determinada região do cérebro.
AVC hemorrágico
Representa cerca de 15 a 20% dos casos. Ocorre quando um vaso sanguíneo rompe, provocando uma hemorragia cerebral.
Embora os mecanismos sejam diferentes, ambos constituem uma emergência médica.
Antes do AVC: a prevenção começa muito antes dos sintomas
Muitas pessoas acreditam que o AVC surge sem qualquer aviso. Na realidade, na maioria dos casos, os fatores de risco vão acumulando-se silenciosamente durante anos. Os principais são:
- hipertensão arterial;
- fibrilhação auricular;
- diabetes;
- colesterol elevado;
- tabagismo;
- excesso de peso;
- sedentarismo;
- consumo excessivo de álcool;
- alimentação pouco saudável;
- apneia obstrutiva do sono.
Destes, a hipertensão arterial continua a ser o fator de risco mais importante. É frequentemente chamada de “assassino silencioso”, porque pode permanecer durante muitos anos sem provocar sintomas enquanto vai lesionando progressivamente os vasos sanguíneos. Controlar a tensão arterial, manter uma alimentação equilibrada, praticar exercício físico regularmente, deixar de fumar e cumprir corretamente a medicação prescrita são algumas das medidas mais eficazes para reduzir o risco de AVC.
Prevenir continua a ser o tratamento mais eficaz.
Durante o AVC: cada minuto conta
Existe uma expressão utilizada em todo o mundo:
“Time is Brain” — O tempo é cérebro.
Durante um AVC isquémico não tratado morrem, em média, cerca de 1,9 milhões de neurónios por minuto. Cada minuto perdido reduz a probabilidade de recuperação. Por isso, reconhecer rapidamente os sinais pode fazer toda a diferença.
Como reconhecer um AVC
Os sintomas surgem habitualmente de forma súbita. Os mais frequentes são:
- desvio da boca;
- dor de cabeça súbita e muito intensa, sobretudo nos AVC hemorrágicos.
- perda súbita da visão;
- dificuldade em falar ou compreender;
- perda de força ou sensibilidade num braço ou numa perna;
- alteração importante do equilíbrio;
Perante qualquer um destes sinais: Ligue imediatamente para o 112.
Não espere para ver se melhora. Não conduza até ao hospital. Não tome medicamentos por iniciativa própria.
Cada minuto pode significar milhões de neurónios preservados.
O tratamento mudou muito nos últimos anos
Nas últimas décadas assistimos a uma verdadeira revolução no tratamento do AVC. Atualmente, muitos doentes podem beneficiar de tratamentos como a trombólise intravenosa e a trombectomia mecânica, realizados em Unidades de AVC especializadas. Quando efetuados dentro da janela terapêutica adequada, estes tratamentos conseguem reduzir significativamente a incapacidade. Mas existe uma condição indispensável: chegar ao hospital o mais cedo possível.
Depois do AVC: começa um novo desafio
Sobreviver ao AVC é apenas o primeiro passo. Depois inicia-se um processo de recuperação que pode durar semanas, meses ou mesmo anos.
Cada pessoa apresenta dificuldades diferentes. Algumas têm maior limitação da marcha. Outras perdem sobretudo a função do membro superior. Outras desenvolvem alterações da fala, da memória, da atenção ou da deglutição. Também podem surgir:
- espasticidade;
- dor;
- alterações cognitivas;
- ansiedade;
- depressão.
Por isso, a recuperação nunca deve centrar-se apenas na capacidade de caminhar. O verdadeiro objetivo da reabilitação é permitir que a pessoa recupere a maior autonomia possível e volte a participar na sua vida familiar, social e profissional.
O papel da Medicina Física e de Reabilitação
A Medicina Física e de Reabilitação desempenha um papel essencial desde as fases iniciais do AVC. O médico fisiatra avalia as limitações funcionais, identifica potenciais complicações e define um programa de reabilitação individualizado, adaptado às necessidades e aos objetivos de cada doente. Este programa pode incluir:
- reabilitação cognitiva;
- reeducação da deglutição;
- reeducação da linguagem e da fala;
- treino da destreza manual;
- treino de fortalecimento muscular;
- reeducação do equilíbrio em posição de sentado estático e dinâmico;
- reeducação do equilíbrio em ortostatismo estático e dinâmico;
- reeducação da marcha;
- reeducação dos esfincteres
- tratamento da espasticidade;
- adaptação das atividades da vida diária;
- prescrição de produtos de apoio, sempre que necessário.
O programa de reabilitação envolve uma equipa multidisciplinar constituída por médico fisiatra, enfermeiro de reabilitação, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, terapeuta da fala, psicólogo e assistente social.
O objetivo comum de toda a equipa é maximizar a recuperação funcional, promover a autonomia e facilitar o regresso da pessoa à sua vida familiar, social e profissional.
O cérebro consegue reaprender
Uma das características mais fascinantes do cérebro é a sua capacidade de adaptação. Este fenómeno chama-se neuroplasticidade. Após um AVC, diferentes áreas cerebrais podem reorganizar-se e criar novas ligações neuronais capazes de compensar parcialmente a função da área lesionada. É precisamente esta capacidade que a reabilitação procura estimular. Quanto mais precoce, intensiva e orientada for a reabilitação, maior é o potencial de recuperação funcional. Embora nem sempre seja possível recuperar totalmente as funções perdidas, praticamente todos os doentes podem melhorar a sua funcionalidade e qualidade de vida.
Depois do primeiro AVC é fundamental evitar o segundo
Quem já sofreu um AVC apresenta um risco aumentado de voltar a sofrer outro. Por isso, após a alta hospitalar é essencial:
- controlar rigorosamente a tensão arterial;
- controlar a diabetes e o colesterol;
- deixar de fumar;
- praticar exercício físico adequado regularmente;
- manter uma alimentação saudável;
- cumprir corretamente toda a medicação prescrita;
- comparecer às consultas de seguimento.
A prevenção secundária constitui uma parte indispensável da reabilitação.
Checklist: Antes, Durante e Depois do AVC
Antes
☐ Controlar os fatores de risco
☐ Não fumar.
☐ Praticar exercício físico adequado regularmente.
☐ Manter uma alimentação saudável.
☐ Cumprir corretamente a medicação prescrita.
Durante
☐ Reconhecer rapidamente os sintomas.
☐ Ligar imediatamente para o 112.
☐ Não esperar que os sintomas desapareçam.
☐ Não conduzir até ao hospital.
Depois
☐ Iniciar precocemente a reabilitação.
☐ Participar ativamente no programa de reabilitação.
☐ Controlar os fatores de risco.
☐ Nunca desistir da reabilitação.
Em resumo
O AVC continua a ser uma das doenças com maior impacto na nossa sociedade. Em poucos minutos pode alterar profundamente a vida de uma pessoa e da sua família. No entanto, também é uma doença em que a prevenção, o reconhecimento precoce dos sintomas e a reabilitação conseguem fazer uma enorme diferença.
Ao longo da minha prática clínica acompanho diariamente pessoas que demonstram uma extraordinária capacidade de recuperação. Algumas voltam a andar. Outras voltam a falar. Muitas recuperam a independência suficiente para regressar às suas casas, ao trabalho e às atividades que davam sentido às suas vidas.
A reabilitação consegue resultados extraordinários, mas há uma verdade que nunca muda. Nenhum tratamento consegue devolver os neurónios que morreram antes de o doente chegar ao hospital.
Por isso, perante um AVC, há três princípios que devemos recordar: Antes, prevenir. Durante, agir rapidamente. Depois, reabilitar.
Porque, apesar dos extraordinários avanços da medicina, o melhor AVC continua a ser aquele que nunca acontece.