O nascimento de um projeto em Memo

Em outubro de 2023 parti para Timor-Leste, onde permaneceria durante dois meses integrada num projeto de voluntariado médico organizado pela associação Ama a Vida.

Levava comigo duas malas de porão. Numa viajavam medicamentos. Na outra, presas de escalada. Curiosamente, ao longo da viagem, foi a mala das presas que suscitou mais perguntas nos aeroportos do que aquela onde levava os medicamentos.

Em Memo, trabalhei numa clínica criada por Irmãs portuguesas que vivem há vários anos em Timor-Leste e que procuram responder às necessidades de saúde da população local. O trabalho não se limitava à clínica. Realizávamos também campanhas médicas noutras regiões próximas de Memo, deslocando-nos a comunidades onde o acesso a cuidados de saúde era muito reduzido ou inexistente. Queria aproveitar aqueles dois meses para contribuir de todas as formas que estivessem ao meu alcance para a população local. Foi por isso que, além dos medicamentos, as presas de escalada também tinham viajado comigo.

O plano inicial: transformar uma antiga capela num rocódromo

A ideia inicial era transformar a antiga capela de Memo num pequeno rocódromo para a população local. Foi com esse projeto em mente que comecei, ainda em Portugal, a procurar material e apoios. No entanto, os planos feitos à distância nem sempre sobrevivem ao encontro com a realidade.

Quando cheguei a Memo e fui conhecer a antiga capela, deparei-me com uma estrutura a ruir. Não existiam as condições mínimas de segurança para instalar ali o que quer que fosso, muito menos, uma parede de escalada. Insistir naquela solução não fazia sentido.

As presas já tinham chegado a Timor-Leste. A vontade de criar o projeto também. Era preciso encontrar um plano B.

O plano B estava a ser construído

Foi então que surgiu uma possibilidade numa escola que estava, nessa altura, a ser construída em Memo.

A escola de Memo ainda em construção. Foi neste espaço que acabariam por nascer dois boulders.

Havia materiais que tinham sobrado da construção da própria escola e surgiu a possibilidade de os reutilizar. Em vez de adaptar um edifício existente, poderíamos construir dois boulders de raiz, integrados no espaço escolar. O projeto mudava de lugar e de forma, mas não de propósito: criar em Memo uma oportunidade para descobrir e praticar escalada. Enquanto a própria escola estava a ser construída, dentro dela começava também a nascer um espaço para a escalada.

Os boulders foram ganhando forma a partir de materiais que tinham sobrado da construção da escola.

Medicina durante o dia. Construção de boulders pela noite dentro.

Durante o dia trabalhava como médica na clínica ou participava nas campanhas médicas realizadas nas comunidades da região. Quando terminava, começava uma segunda jornada. Ia para a escola e juntava-me às pessoas locais que estavam a ajudar na construção dos boulders.

O trabalho prolongava-se muitas vezes pela noite dentro. Quando desaparecia a luz natural, continuávamos à luz dos holofotes. Pouco a pouco, os materiais que tinham sobrado da construção da escola começaram a transformar-se em paredes de escalada. Era um projeto feito com aquilo que tínhamos disponível, procurando encontrar soluções adequadas à realidade local.

A proteção das quedas também teve de ser resolvida dessa forma. Sem os colchões específicos utilizados habitualmente rocódromos, comprei colchões de cama localmente, que colocámos junto às estruturas para criar uma zona de proteção.

De Portugal chegaram as primeiras presas

Antes de viajar, a Yupik tinha promovido uma campanha junto de rocódromos e escaladores portugueses para recolher presas para o projeto. Foram essas presas que viajaram comigo numa das malas de porão. Depois de construídos e pintados os painéis, chegou finalmente o momento de as colocar na parede.

Parte das presas recolhidas em Portugal e levadas até Memo. Montagem das presas num dos boulders. Route Setting em ação.

Presas para criar novos desafios

Desde o início, o objetivo não era apenas conseguir material suficiente para equipar os dois boulders uma única vez. Queria deixar em Memo uma quantidade e variedade de presas que permitisse modificar o route setting regularmente de modo a incentivar a resolução de problemas diversificados. Cada via obriga o escalador a observar a parede, pensar numa solução e experimentar diferentes formas de utilizar o corpo para progredir. Diferentes percursos significam diferentes problemas, diferentes soluções e diferentes movimentos.

 A Flatholds apoiou o projeto

Ainda em Portugal, contactei vários fabricantes de presas de escalada, apresentei a ideia de criar o projeto em Timor-Leste e procurei apoio para conseguir mais presas. A maioria das empresas disponibilizou descontos para a aquisição de material. A Flatholds, porém, quis conhecer melhor o projeto. Perguntaram-me qual era o plano e como pretendia concretizá-lo. Enviei-lhes a proposta que tinha preparado e fotografias do projeto de Escalada Adaptada de Alcoitão, que já tinha criado.

A resposta ultrapassou aquilo que esperava. A Flatholds decidiu oferecer ao projeto 50 kg de presas de escalada e assumir integralmente os custos necessários para as fazer chegar a Díli. Esse material juntou-se às presas que tinham viajado comigo desde Portugal e permitiu deixar em Memo uma diversidade muito maior para route setting.

O dia da inauguração

Inauguração dos boulders na escola de Memo. As Irmãs prepararam um bolo para celebrarmos com as crianças a conclusão do projeto.

Depois das horas de trabalho, das noites à luz dos holofotes, da montagem das presas e das primeiras experiências de escalada, chegou o momento de celebrar.

As Irmãs prepararam um bolo e assinalámos com as crianças a inauguração dos dois boulders.

O plano inicial de transformar uma antiga capela num rocódromo não tinha resultado. Mas o plano B tinha-se transformado em algo que eu não tinha imaginado quando coloquei uma mala cheia de presas no avião.

Chegaram os primeiros escaladores

Uma das primeiras atividades de escalada com as crianças na escola de Memo.

Depois de todo o trabalho de construção, os boulders estavam finalmente prontos para aquilo que verdadeiramente importava: serem utilizados.

As crianças começaram a experimentar a escalada, a descobrir as presas e a procurar formas de progredir pela parede. Era o primeiro contacto com a modalidade.

Primeiras experiências de escalada nos novos boulders de Memo.

Escalar e aprender português

Os boulders podiam servir para mais do que aprender a escalar. Entre as presas que levei de Portugal estavam letras, que distribuímos pelas paredes. A partir delas era possível criar jogos e desafios em que as crianças tinham de procurar determinadas letras enquanto escalavam e utilizá-las para formar palavras.

A escalada passava assim a poder ser associada à aprendizagem e prática da língua portuguesa. Para chegar à letra certa era preciso observar, pensar, escolher um percurso e movimentar-se pela parede.

Em Memo, a parede não servia apenas para chegar mais alto. Também servia para aprender língua portuguesa.

Nasceu uma comunidade de escalada

Aconteceu algo que eu não tinha planeado. As crianças e os jovens não foram os únicos a querer experimentar. As pessoas locais que tinham trabalhado connosco na construção começaram também a escalar. Havia ainda trabalhadores de outros países envolvidos na obra da escola e também eles começaram a juntar-se a nós.

Ao final do dia, encontrávamo-nos junto aos boulders. Uns escalavam. Outros experimentavam pela primeira vez. Outros observavam, ajudavam ou procuravam resolver um problema.

Pessoas de diferentes idades, origens e nacionalidades começaram a encontrar-se em torno da mesma parede.

Tínhamos criado uma verdadeira comunidade de escalada em Memo.

Preparar o projeto para continuar

Construir dois boulders não era suficiente. Se o projeto dependesse da minha presença, terminaria quando regressasse a Portugal. Por isso, procurei também transmitir os conhecimentos necessários para que as atividades pudessem continuar. Ensinei três elementos da comunidade local a dinamizar as sessões de escalada, para que fossem eles a dar continuidade ao projeto.

Três elementos da comunidade local preparados para dar continuidade às atividades, com parte dos 50 kg de presas oferecidos pela Flatholds.

O que ficou em Memo

Em novembro de 2023 terminaram os meus dois meses em Timor-Leste. Regressei a Portugal.

Em Memo ficaram dois boulders construídos com materiais disponíveis localmente, as presas recolhidas pela comunidade da escalada portuguesa, 50 kg de presas oferecidos e enviados até Díli pela Flatholds, colchões comprados localmente e três pessoas preparadas para continuar a dinamizar as atividades.

Mas ficou também algo que não cabia em nenhuma das duas malas com que tinha chegado. Ficou um espaço onde crianças e jovens podiam praticar escalada. Ficaram novas vias por criar, novos problemas para resolver, novos movimentos por descobrir. E uma pequena comunidade que nasceu enquanto construíamos e que acabou por se reunir em torno de duas paredes de escalada numa escola de Memo.

Foi assim que nasceu um projeto de escalada em Timor-Leste.