Há um momento que, para muitos doentes, representa uma vitória: o dia da alta.
Depois de semanas ou meses de internamento, consultas, tratamentos e treino, regressar a casa significa que uma etapa terminou. Mas será que significa que a reabilitação terminou?
Nem sempre. Porque recuperar força, equilíbrio, mobilidade ou capacidade para realizar determinadas tarefas é apenas uma parte do caminho. Reabilitar é recuperar função, mas é também recuperar vida.
Da recuperação da função à participação
Durante muito tempo, a recuperação de uma pessoa após uma doença ou lesão foi avaliada sobretudo através daquilo que conseguia fazer: andar, vestir-se, alimentar-se, subir/descer escadas ou utilizar uma cadeira de rodas de forma autónoma. Tudo isso continua a ser fundamental. No entanto, hoje sabemos que a funcionalidade é muito mais do que a capacidade física de executar uma tarefa.
A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), da Organização Mundial da Saúde, trouxe uma perspetiva mais abrangente: a saúde e a incapacidade resultam da interação entre as funções e estruturas do corpo, as atividades que a pessoa consegue realizar, a sua participação na sociedade, os fatores ambientais e pessoais que a rodeiam.
Isto significa que duas pessoas com a mesma lesão podem ter níveis de participação completamente diferentes. Uma pessoa pode conseguir andar, mas deixar de sair de casa. Pode conseguir vestir-se sozinha, mas não regressar ao trabalho. Pode ser independente nas atividades básicas do dia a dia, mas abandonar o desporto, os amigos ou as atividades que davam significado à sua vida.
Do ponto de vista estritamente funcional, pode ter recuperado muito. Mas terá verdadeiramente voltado a viver?
O hospital prepara. A vida põe à prova.
Num centro de reabilitação podemos criar condições controladas para recuperar capacidades. Treinamos transferências, marcha, equilíbrio, força, utilização de produtos de apoio, atividades da vida diária e muitas outras competências. No entanto, é quando a pessoa regressa ao seu ambiente que surgem os verdadeiros desafios.
A escada que existe à entrada de casa.
O passeio que não permite a passagem de uma cadeira de rodas.
O transporte público que não é acessível.
O regresso ao trabalho.
O medo de cair novamente.
A insegurança de voltar a conduzir.
O receio de praticar atividade física.
O olhar dos outros.
E, por vezes, o próprio medo de descobrir aquilo que o corpo consegue — ou já não consegue — fazer. É por isso que a reabilitação não pode terminar à porta do hospital.
Voltar a participar também é reabilitação
Voltar a tomar café com amigos.
Levar os filhos à escola.
Regressar ao trabalho.
Viajar.
Conduzir.
Ir à praia.
Praticar desporto.
Retomar um hobby.
Descobrir uma atividade nova.
Estas conquistas podem não aparecer numa escala de força muscular ou numa avaliação da amplitude articular, mas podem representar algumas das mudanças mais importantes na vida de uma pessoa. O objetivo final da reabilitação não deve ser apenas aumentar aquilo que o corpo consegue fazer. Deve ser permitir que essa capacidade se traduza em autonomia, participação e qualidade de vida.
Quando uma parede de escalada se transforma num espaço de reabilitação
Foi desta forma de olhar para a reabilitação que nasceu o projeto de Escalada Adaptada em Alcoitão. Uma parede de escalada pode parecer muito distante de uma sala de reabilitação. Na realidade, pode tornar-se um lugar onde muitas das capacidades trabalhadas durante o processo de reabilitação são colocadas à prova num contexto completamente diferente. É preciso alcançar uma presa, transferir o peso do corpo, procurar equilíbrio, coordenar movimentos, tomar decisões e encontrar uma solução para continuar a subir. Mas existe outra dimensão, menos fácil de medir.
É preciso confiar. Experimentar. Falhar. Voltar a tentar. Vencer o medo. E perceber que ainda existem desafios que podemos aceitar.
A escalada deixa então de ser apenas exercício físico. Torna-se uma oportunidade de participação, de convívio, de superação e, para alguns participantes, de descoberta de uma modalidade desportiva que pode continuar muito para além do período de reabilitação.
Quando a reabilitação sai do hospital
Nos últimos dias, esta realidade chegou também à televisão. O Telejornal da RTP1 mostrou a Escalada Adaptada desenvolvida em Alcoitão e deu voz aos próprios participantes. Na reportagem vemos pessoas com diferentes capacidades perante a mesma parede e percebemos algo que dificilmente se explica apenas através de números: o que significa enfrentar um desafio, vencer medos, ganhar força e recuperar confiança. É precisamente aqui que a reportagem se cruza com a mensagem deste artigo.
A reabilitação não acontece apenas quando estamos a tratar uma incapacidade. Também acontece quando criamos oportunidades para que uma pessoa volte a participar.
A parede de escalada é apenas um exemplo. Para outra pessoa poderá ser regressar à piscina, voltar a conduzir, entrar novamente no local de trabalho, viajar ou simplesmente conseguir sair de casa sem depender de alguém. O destino é diferente para cada pessoa.
Não basta perguntar “o que consegue fazer?”
Talvez uma das perguntas mais importantes em reabilitação seja outra: “O que gostaria de voltar a fazer?”
A resposta muda de pessoa para pessoa. E deve mudar.
Porque não reabilitamos diagnósticos. Reabilitamos pessoas que tinham uma vida antes de adoecerem ou sofrerem uma lesão — e que continuam a ter objetivos, responsabilidades, relações, interesses e projetos depois dela. Por isso, recuperar uma função nunca deve ser o ponto final. É aquilo que essa função permite recuperar que verdadeiramente importa.
Voltar a viver
Dar alta é necessariamente uma decisão clínica. Significa que determinada fase do processo terminou ou que os objetivos definidos para aquele período foram atingidos. No entanto, a vida não funciona por episódios de internamento.
A adaptação continua. A aprendizagem continua. Os desafios mudam. E muitas vezes surgem novas possibilidades que, no início da reabilitação, a própria pessoa ainda não conseguia imaginar. Talvez por isso devamos medir o sucesso da reabilitação não apenas pela distância que alguém consegue andar, pela força que recuperou ou pelo grau de independência alcançado.
Devemos também perguntar se voltou a participar. Se recuperou papéis. Se voltou a fazer escolhas. Se voltou a estabelecer objetivos. Se voltou a sentir que a sua vida lhe pertence.
Porque a reabilitação não termina quando o doente recebe alta. Termina quando volta a viver.
Para saber mais
A reportagem do Telejornal da RTP1 sobre a Escalada Adaptada em Alcoitão:
https://www.rtp.pt/noticias/pais/escalada-integrada-na-reabilitacao-fisica-em-alcoitao_v1761026
Conheça o projeto de Escalada Adaptada em Alcoitão e descubra como participar:
https://medicinaemmovimento.com/escalada-adaptada/