“Um segundo. É tudo o que basta para mudar uma vida.”

Nunca me esquecerei de um dos primeiros doentes com lesão medular que acompanhei durante o meu internato de Medicina Física e de Reabilitação.

Tinha apenas 19 anos. Era verão. Um dia de praia como tantos outros. Entre amigos, decidiu mergulhar de cabeça. Em poucos segundos, tudo mudou devido a uma lesão cervical da medula espinal. Nunca mais voltou a mexer os braços nem as pernas. Tornou-se tetraplégico.

Ao longo dos meses seguintes acompanhei o seu percurso de reabilitação. Vi um jovem que, poucos dias antes, era completamente independente aprender a utilizar uma cadeira de rodas elétrica, a recorrer a tecnologia de apoio, a adaptar-se a novas formas de realizar as atividades mais básicas do dia a dia e, sobretudo, a reconstruir um futuro que nunca imaginou ter de viver.

Desde então, sempre que chega o verão e vejo pessoas mergulharem em praias, rios ou piscinas sem conhecerem a profundidade da água, lembro-me dele.

É precisamente por isso que escrevo este artigo. Não para assustar, mas porque algumas tragédias podem ser evitadas.

Um problema muito mais frequente do que imaginamos

O verão é sinónimo de férias, praia, piscina e convívio. Infelizmente, é também a época do ano em que aumentam os acidentes relacionados com mergulhos.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV), cerca de 100 portugueses sofrem todos os anos lesões da coluna vertebral associadas a acidentes de mergulho, sobretudo entre maio e setembro. Estes acidentes afetam principalmente jovens com menos de 35 anos e podem resultar em incapacidades permanentes, como paraplegia ou tetraplegia.

Em algumas séries internacionais, os acidentes por mergulho representam até cerca de 20% das lesões vertebro-medulares traumáticas em adultos jovens.

O mais preocupante é que, na grande maioria dos casos, estas lesões poderiam ter sido evitadas.

O que acontece quando a cabeça bate primeiro no fundo?

Quando uma pessoa mergulha de cabeça para uma zona de água pouco profunda, a cabeça pode embater violentamente no fundo antes que o corpo tenha tempo de desacelerar. Enquanto a cabeça pára subitamente, o resto do corpo continua em movimento. Toda essa energia é transmitida para a coluna cervical. As vértebras C5, C6 e C7 estão entre as mais frequentemente afetadas neste tipo de acidente. O resultado pode incluir:

  • fraturas vertebrais;
  • luxações;
  • compressão da medula espinal;
  • interrupção da comunicação entre o cérebro e o resto do corpo.

Dependendo da gravidade da lesão, as consequências podem variar desde défices motores parciais até paraplegia, tetraplegia ou, nas lesões cervicais mais altas, insuficiência respiratória e morte.

A lesão não termina no momento do impacto

Muitas pessoas imaginam que o dano acontece apenas no instante em que a cabeça bate no fundo. Na realidade, existe um segundo processo igualmente importante.

Após a lesão inicial inicia-se uma cascata de acontecimentos biológicos conhecida como lesão secundária. A inflamação, o edema, a diminuição do fluxo sanguíneo e a falta de oxigenação dos tecidos provocam a morte progressiva de neurónios e agravam a lesão inicial da medula espinal. É precisamente por isso que uma lesão medular constitui uma verdadeira emergência médica. Quanto mais rapidamente o doente receber tratamento especializado, maior será a probabilidade de limitar a extensão da lesão secundária.

Atualmente ainda não existe cura

Esta é provavelmente a mensagem mais importante deste artigo. Hoje conseguimos estabilizar fraturas da coluna. Conseguimos realizar cirurgia quando indicada. Conseguimos reduzir complicações. Conseguimos iniciar precocemente programas intensivos de reabilitação. Mas ainda não conseguimos regenerar a medula espinal gravemente lesionada.

A investigação científica tem evoluído de forma extraordinária nas áreas da terapia celular, biomateriais, interfaces cérebro-computador, estimulação elétrica epidural e medicina regenerativa. Apesar destes avanços serem muito promissores, continuam maioritariamente em fase de investigação e ainda não existe um tratamento capaz de restaurar totalmente as funções perdidas após uma lesão medular.

É precisamente por isso que a prevenção continua a ser o tratamento mais eficaz.

O papel da Medicina Física e de Reabilitação

Quando termina a fase aguda, inicia-se um longo percurso de reabilitação. O objetivo não é apenas recuperar movimento. O verdadeiro objetivo é recuperar autonomia.

Ao longo deste percurso, a pessoa aprende novamente a realizar transferências, utilizar uma cadeira de rodas, vestir-se, alimentar-se, cuidar da higiene pessoal, regressar aos estudos ou ao trabalho, conduzir um veículo adaptado e reencontrar o seu papel na família e na sociedade.

É um processo exigente. Mas também profundamente transformador.

Ao longo da minha prática clínica tive o privilégio de acompanhar pessoas com lesão medular que voltaram a estudar, trabalhar, praticar desporto, constituir família e desenvolver novos projetos de vida.

A reabilitação faz uma diferença enorme. Mas nenhuma reabilitação consegue devolver completamente aquilo que uma lesão irreversível da medula retirou.

Cinco minutos de prevenção podem evitar uma vida inteira de consequências

Antes de mergulhar, confirme sempre:

☐ Conheço realmente a profundidade da água?

☐ Consigo ver claramente o fundo?

☐ Existem rochas, bancos de areia ou objetos submersos?

☐ É um local seguro para mergulhos?

☐ Nunca mergulho durante a noite ou em condições de pouca visibilidade.

☐ Nunca mergulho sob o efeito de álcool ou outras substâncias.

☐ Respeito sempre a sinalização e as zonas vigiadas.

Na dúvida, não entro na água.

Em resumo

Um mergulho dura apenas alguns segundos. Uma lesão medular pode durar toda a vida.

Todos os dias, profissionais de saúde acompanham pessoas que demonstram uma extraordinária capacidade para reconstruir a sua autonomia depois de uma lesão medular. A sua resiliência é inspiradora. Mas continuo a acreditar que a maior vitória será sempre evitar que mais alguém tenha de iniciar esse caminho.

Se este artigo fizer apenas uma pessoa parar antes de mergulhar e decidir não entrar de cabeça numa água cuja profundidade desconhece, então terá cumprido o seu propósito.

Referências

  • Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral. Mergulhos mal calculados continuam a preocupar médicos e a afetar jovens. Campanha nacional de prevenção das lesões da coluna vertebral associadas aos mergulhos, 2025.
  • Yılmaz M, Ikizoglu E, Arslan M, Ozgiray E, Caliskan KE, Erbayraktar RS. An Overview of Spinal Injuries due to Dive or Fall into Shallow Water: Our Long-Term, Double-Center Experience from the Aegean Coast. Emergency Medicine International. 2021;2021:9937730.
  • Park K, Park T, Lee S, Kim S, Baek J, Ryou A. Overview of Cervical Spine Injuries Caused by Diving Into Shallow Water on Jeju Island: A 9-Year Retrospective Study in a Regional Trauma Center. Korean Journal of Neurotrauma. 2025;21(2):79–92.
  • Fischer G, et al. Advancements in Neuroregenerative and Neuroprotective Therapies for Spinal Cord Injury. Frontiers in Neuroscience. 2024.