Subir e descer escadas, levantar-se de uma cadeira, caminhar, correr, agachar-se ou simplesmente permanecer sentado durante algum tempo. Os joelhos participam em muitos dos movimentos que fazemos diariamente — e, muitas vezes, só nos lembramos deles quando começam a doer.

A dor no joelho é uma queixa frequente e pode surgir em diferentes idades. Entre as alterações que podem estar na sua origem encontra-se a condromalácia, termo utilizado para descrever alterações da cartilagem articular, frequentemente ao nível da rótula.

Embora seja muitas vezes associada a pessoas que praticam desporto, pode surgir em diferentes contextos e resultar da combinação de vários fatores: alterações biomecânicas, sobrecarga repetida, traumatismos, excesso de peso, défices musculares ou alterações do alinhamento do membro inferior. Há uma mensagem importante desde o início:

Quando um joelho dói, não devemos olhar apenas para o joelho. Mas sim para todo o membro inferior. Desde a bacia até ao pé.

A forma como caminhamos, o tipo de atividade física que realizamos e até o calçado que usamos podem influenciar a forma como as cargas chegam à articulação.

Como estão os nossos joelhos dos portugueses?

Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. De acordo com o EpiReumaPt, um grande estudo epidemiológico de base populacional realizado em Portugal, estimou que 12,4% da população adulta portuguesa apresenta artrose do joelho, correspondendo a cerca de um milhão de portugueses. A prevalência aumenta de forma muito significativa com a idade e é superior nas mulheres. Embora estes continuem a ser os principais dados nacionais de prevalência disponíveis, estudos portugueses publicados posteriormente permitiram conhecer melhor a dimensão e o impacto do problema.

Uma análise publicada em 2021, utilizando a população do EpiReumaPt, estimou que a artrose do joelho afetava aproximadamente 1.002.000 portugueses. O estudo mostrou também que a idade, o excesso de peso e a obesidade estavam associados a maior gravidade clínica da artrose da anca e/ou joelho.

Outro estudo português, publicado em 2023, analisou especificamente a dor em pessoas com artrose do joelho e/ou anca. Cerca de 68,8% apresentavam níveis de dor considerados não controlados, definidos como uma intensidade média de pelo menos 5 numa escala de 0 a 10. Essas pessoas apresentavam também maior dificuldade nas atividades da vida diária e pior qualidade de vida.

São números que mostram que a artrose não deve ser encarada simplesmente como uma consequência inevitável da idade.

Importa, contudo, distinguir dois conceitos: Condromalácia e artrose não são sinónimos.

Ter condromalácia não significa que uma pessoa vá inevitavelmente desenvolver artrose. Mas alterações da cartilagem, quando associadas a fatores como sobrecarga articular persistente, excesso de peso, alterações biomecânicas ou traumatismos, justificam atenção. Podem constituir uma oportunidade para perceber por que razão aquele joelho está a sofrer e atuar sobre os fatores que podem ser modificados.

Afinal, o que é a condromalácia?

A cartilagem articular reveste as superfícies ósseas das articulações, permitindo que estas deslizem entre si com pouco atrito e ajudando simultaneamente a distribuir as cargas.

Na condromalácia existem alterações desta cartilagem, frequentemente na superfície posterior da rótula, que articula com o fémur. É também importante distinguir condromalácia patelar de síndrome de dor patelofemoral. Os termos são muitas vezes utilizados como se significassem exatamente a mesma coisa, mas não são sinónimos. É possível existir dor anterior do joelho sem uma lesão significativa da cartilagem, assim como podem existir alterações cartilagíneas sem sintomas proporcionais à sua extensão. Por isso, uma alteração identificada numa ressonância magnética deve ser sempre interpretada no contexto da história clínica e do exame objetivo. Tratamos pessoas, não exames.

Quais os sinais e sintomas que não devemos ignorar?

Um dos sintomas mais característicos é a dor na região anterior do joelho, muitas vezes em torno ou atrás da rótula. Pode tornar-se mais evidente ao:

  • subir ou descer escadas;
  • agachar;
  • correr ou saltar;
  • levantar-se de uma cadeira;
  • permanecer muito tempo sentado com os joelhos fletidos;
  • aumentar subitamente a intensidade ou o volume da atividade física.

Podem ainda surgir crepitações ou sensação de atrito durante o movimento, rigidez, desconforto após períodos de repouso e, em algumas situações, edema. Nem todos estes sinais significam que existe condromalácia. Uma dor persistente ou recorrente deve ser avaliada para se identificar a sua verdadeira origem.

Porque sofre a cartilagem?

Raramente existe uma única causa. O joelho encontra-se integrado numa cadeia biomecânica e recebe forças provenientes tanto do contacto do pé com o solo como dos movimentos e do controlo da anca e da bacia.

Entre os fatores que podem contribuir para uma distribuição inadequada das cargas encontram-se o excesso de peso, alterações do alinhamento dos membros inferiores, traumatismos prévios, défices de força muscular, alterações do controlo neuromuscular, determinadas atividades repetitivas e aumento demasiado rápidos da carga de treino. É por isso que a avaliação não deve terminar no local onde dói.

Os pés e o calçado também influenciam os joelhos

Os pés constituem a nossa base de contacto com o solo e a forma como apoiamos o pé pode influenciar a biomecânica de todo o membro inferior e, consequentemente, a distribuição das cargas que chegam ao joelho.

O calçado merece, por isso, atenção.

Atualmente existem ténis com diferentes características de estabilidade, suporte e amortecimento, concebidos para responder a diferentes padrões de apoio, frequentemente descritos como pronador, supinador ou neutro.

Isso não significa que exista um único modelo correto para cada pessoa. A escolha deve ter em consideração as características individuais, o conforto, a estabilidade, o padrão de apoio e a atividade praticada. É igualmente importante substituir o calçado quando este se encontra excessivamente desgastado, sobretudo quando é utilizado regularmente para a prática de exercício físico ou desporto.

Em determinadas situações, palmilhas personalizadas podem também ser úteis, quando existe indicação para a sua utilização. O calçado ou as palmilhas não tratam, por si só, uma lesão da cartilagem. Podem, contudo, integrar uma abordagem mais abrangente destinada a melhorar a biomecânica do membro inferior.

O papel da Medicina Física e de Reabilitação

Na Medicina Física e de Reabilitação, o objetivo não é apenas diminuir a dor. É necessário procurar perceber por que razão aquele joelho está a ser sobrecarregado.

A avaliação pode incluir mobilidade articular, força muscular, alinhamento dos membros inferiores, pés e tornozelos, marcha, controlo neuromuscular, atividade profissional e desportiva, peso corporal e antecedentes de lesões.

O tratamento deve ser individualizado e combinado, atuando não apenas sobre os sintomas, mas também sobre os fatores que podem estar a contribuir para a sobrecarga. Pode incluir adaptação temporária das cargas, exercício terapêutico, controlo dos fatores de risco, fisioterapia e, em doentes selecionados, tratamentos infiltrativos e técnicas de medicina regenerativa.

Tratamentos infiltrativos e medicina regenerativa

Nos últimos anos têm-se desenvolvido diferentes abordagens destinadas ao controlo dos sintomas e à modulação do ambiente biológico da articulação. Nem todas têm, contudo, o mesmo mecanismo de ação, nível de evidência ou indicação.

1. Viscossuplementação

A viscossuplementação consiste na administração intra-articular de ácido hialurónico.

O ácido hialurónico é um componente natural do líquido sinovial e participa nas suas propriedades viscoelásticas. A sua administração intra-articular pode ser utilizada em determinados doentes com condromalácia ou artrose do joelho com o objetivo de diminuir a dor e melhorar a função.

Os consensos internacionais não são completamente uniformes quanto à sua utilização, pelo que a decisão deve ser individualizada. É importante esclarecer que a viscossuplementação não faz crescer novamente a cartilagem que se perdeu.

2. Plasma rico em plaquetas

O plasma rico em plaquetas (PRP) é obtido a partir do próprio sangue do doente. Depois de processado, obtém-se uma preparação com concentração aumentada de plaquetas e diferentes mediadores biologicamente ativos.

O PRP tem sido extensamente estudado no tratamento da condromalácia e da artrose do joelho. O consenso europeu ESSKA-ORBIT, publicado em 2024, considera existir evidência clínica suficiente para apoiar a utilização do PRP na condromalácia e artrose do joelho, sobretudo nos graus ligeiros a moderados. Contudo, a melhoria da dor e da função não deve ser confundida com regeneração comprovada da cartilagem. A evidência clínica disponível ainda não permite afirmar que o PRP consiga reverter estruturalmente a artrose.

3. Terapias celulares

As terapias baseadas em células mesenquimatosas constituem uma das áreas mais interessantes da medicina regenerativa. O objetivo é explorar as propriedades biológicas destas células e a sua capacidade de influenciar o ambiente articular e os processos de reparação dos tecidos. A investigação tem apresentado resultados encorajadores em determinados contextos, mas continuam a existir diferenças importantes entre os produtos utilizados, origem e processamento das células, doses, técnicas de administração, indicações e resultados estudados.

O consenso europeu ESSKA-ORBIT sobre terapias celulares salienta precisamente a necessidade de selecionar cuidadosamente os doentes e interpretar a evidência disponível de acordo com o produto utilizado e a situação clínica.

E no futuro? Hidrogéis e engenharia da cartilagem

E se fosse possível criar um ambiente onde a cartilagem pudesse reparar-se?

É uma das questões que está a orientar uma área muito interessante da investigação atual: o desenvolvimento de hidrogéis e scaffolds para reparação de defeitos da cartilagem.

Os hidrogéis são materiais com elevado conteúdo em água que podem ser concebidos para reproduzir algumas características do ambiente da matriz extracelular da cartilagem. Podem funcionar como uma estrutura tridimensional de suporte e ser associados a células, fatores de crescimento ou outras moléculas biologicamente ativas.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 descreveu múltiplos tipos de hidrogéis e materiais compósitos que estão a ser investigados para a reparação de defeitos da cartilagem do joelho. É uma área promissora da engenharia de tecidos, mas importa distinguir a investigação em defeitos focais da cartilagem do tratamento da condromalácia ou da artrose generalizada.

Estamos perante uma área em desenvolvimento. A investigação procura responder a um dos grandes desafios da medicina musculoesquelética: conseguir reparar de forma eficaz um tecido com capacidade natural de regeneração muito limitada.

Fisioterapia: tratar o joelho é trabalhar todo o membro inferior

As técnicas infiltrativas e de medicina regenerativa, quando indicadas, não substituem a fisioterapia e o exercício terapêutico. Fazem parte de uma estratégia combinada.

Um joelho depende da força, mobilidade e controlo de todo o membro inferior. Por isso, limitar a reabilitação ao fortalecimento do quadricípite é insuficiente.

Dependendo da avaliação individual, o programa pode incluir trabalho dirigido ao:

  • quadricípite;
  • isquiotibiais;
  • glúteos e restantes estabilizadores da anca;
  • adutores e abdutores;
  • gémeos e solear;
  • músculos responsáveis pelo controlo do pé e tornozelo;
  • mobilidade e flexibilidade;
  • proprioceção e equilíbrio;
  • controlo neuromuscular;
  • estabilidade da bacia e do tronco;
  • padrão de marcha;
  • técnica dos movimentos funcionais ou desportivos.

As recomendações atuais para a dor patelofemoral colocam o exercício terapêutico dirigido ao joelho, associado ao trabalho da musculatura da anca, no centro do tratamento.

O objetivo não é simplesmente conseguir músculos mais fortes. É conseguir que pé, tornozelo, joelho, anca e bacia trabalhem de forma coordenada, permitindo uma melhor gestão das cargas durante o movimento.

Uma infiltração pode ajudar a controlar os sintomas e, em determinadas situações, facilitar a progressão no programa de reabilitação. Mas não substitui o trabalho muscular nem corrige, por si só, os fatores biomecânicos que podem estar a contribuir para a sobrecarga.

Podemos prevenir?

Nem todas as alterações da cartilagem podem ser evitadas, mas existem muitos fatores sobre os quais podemos atuar.

Manter um peso adequado reduz a carga mecânica sobre os joelhos. A atividade física regular ajuda a conservar força muscular, mobilidade e capacidade funcional. O exercício deve, contudo, ser adaptado à condição de cada pessoa e progredir gradualmente.

É importante:

  • manter uma atividade física regular;
  • fortalecer globalmente os membros inferiores;
  • evitar aumentos bruscos da carga de treino;
  • respeitar os períodos de recuperação;
  • tratar adequadamente lesões anteriores;
  • avaliar alterações biomecânicas quando existem sintomas;
  • utilizar calçado adequado à atividade;
  • substituir o calçado excessivamente desgastado;
  • recorrer a palmilhas quando existe indicação;
  • manter um peso corporal adequado;
  • procurar avaliação médica perante dor persistente, edema ou limitação funcional.

Parar completamente de se mexer por medo de “gastar o joelho” também não é a solução. O movimento adequadamente doseado e o fortalecimento muscular são aliados da saúde articular.

Da condromalácia à artrose: o caminho não está escrito

A cartilagem articular possui uma capacidade de reparação muito limitada. Ao longo dos anos, fatores como sobrecarga persistente, excesso de peso, traumatismos, alterações biomecânicas e perda de capacidade muscular podem contribuir para a progressão das alterações articulares. No entanto,  condromalácia não é sinónimo de artrose nem significa que a evolução para artrose seja inevitável.

É precisamente aqui que prevenção, diagnóstico e tratamento ganham importância. Quanto mais cedo identificarmos os fatores modificáveis, mais oportunidades temos de intervir: adequar cargas, melhorar força e controlo muscular, corrigir fatores biomecânicos quando possível, cuidar do calçado, controlar o peso e recorrer aos tratamentos médicos indicados em cada situação.

Não espere que a dor se torne incapacitante para começar a cuidar dos seus joelhos.

Os joelhos foram feitos para se mover. Cuide deles enquanto ainda o levam onde quer ir.

Nota

A informação apresentada neste artigo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica. O tratamento da dor e das alterações da cartilagem do joelho deve ser individualizado. A indicação para tratamentos infiltrativos ou técnicas de medicina regenerativa depende do diagnóstico, idade, grau e localização da lesão, sintomas, repercussão funcional e características de cada pessoa.

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