Quando pensamos em doença de Alzheimer, pensamos quase imediatamente em perda de memória. Esquecer nomes, repetir perguntas ou deixar de reconhecer pessoas e lugares são algumas das manifestações mais conhecidas da doença. No entanto, a doença de Alzheimer é muito mais do que uma doença da memória.

À medida que evolui, pode comprometer a orientação, a linguagem, a capacidade de tomar decisões e realizar tarefas, mas também a mobilidade, o equilíbrio e, progressivamente, a autonomia da pessoa nas atividades do dia a dia.

No Dia Mundial da Doença de Alzheimer, assinalado a 21 de setembro, importa falar da doença, dos tratamentos atualmente disponíveis e dos avanços que têm surgido nos últimos anos. Mas importa também falar daquilo que podemos fazer para preservar durante mais tempo a saúde, a funcionalidade e a qualidade de vida.

Demência e doença de Alzheimer não são sinónimos

Os dois termos são frequentemente utilizados como sinónimos, mas não significam exatamente o mesmo.

A demência é uma síndrome caracterizada pelo declínio progressivo das capacidades cognitivas, com repercussão na capacidade da pessoa realizar as suas atividades habituais. Pode ter diferentes causas.

A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência, sendo responsável por cerca de 60 a 70% dos casos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2021 existiam cerca de 57 milhões de pessoas com demência em todo o mundo, surgindo aproximadamente 10 milhões de novos casos todos os anos. Com o envelhecimento da população, estes números deverão continuar a aumentar.

E em Portugal?

Os dados mais recentes mostram bem a dimensão do problema. O relatório Prevalence of Dementia in Europe 2025, publicado pela Alzheimer Europe em janeiro de 2026, estima que em Portugal existam cerca de 238 400 pessoas a viver com demência, correspondendo a aproximadamente 2,3% da população portuguesa. As mulheres representam cerca de dois terços destes casos.

As projeções para as próximas décadas apontam para um aumento significativo do número de pessoas que vivem com demência, associado sobretudo ao envelhecimento demográfico. Não estamos, portanto, perante um problema apenas individual ou familiar. A demência constitui um importante desafio de saúde pública, com consequências sociais, económicas e assistenciais.

Como evolui a doença de Alzheimer?

A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva. As alterações no cérebro começam vários anos antes de os sintomas se tornarem evidentes e estão associadas, entre outros mecanismos, à acumulação anormal de proteínas, nomeadamente beta-amiloide e tau.

Nas fases iniciais podem surgir alterações discretas da memória recente. A pessoa esquece acontecimentos ou conversas recentes, repete perguntas, perde objetos ou começa a ter maior dificuldade em organizar tarefas que anteriormente realizava sem esforço. Com a progressão da doença podem surgir dificuldades na linguagem, orientação no tempo e no espaço, resolução de problemas e tomada de decisões.

Atividades aparentemente simples tornam-se progressivamente mais complexas. Gerir dinheiro, preparar refeições, organizar a medicação, fazer compras ou deslocar-se autonomamente podem começar a exigir ajuda.

Numa fase mais avançada, a dependência estende-se às atividades básicas da vida diária, como vestir-se, tomar banho, utilizar a casa de banho ou alimentar-se. Mas existe uma dimensão da doença de que se fala menos: a perda de capacidade física e funcional. Podem surgir alterações da marcha e do equilíbrio, diminuição da força muscular, maior dificuldade nas transferências e aumento do risco de queda. A redução da atividade física pode, por sua vez, acelerar o descondicionamento físico e aumentar ainda mais a dependência. Por isso, acompanhar a evolução da doença não significa avaliar apenas a memória. É igualmente importante preservar aquilo que a pessoa ainda consegue fazer.

Existe tratamento para a doença de Alzheimer?

Atualmente, não existe um tratamento que cure a doença de Alzheimer. Durante muitos anos, o tratamento farmacológico baseou-se essencialmente em medicamentos destinados a controlar ou atenuar alguns dos sintomas da doença.

Os inibidores da acetilcolinesterase, como o donepezilo, a rivastigmina e a galantamina, e a memantina continuam a fazer parte das opções terapêuticas, dependendo da fase da doença e das características de cada pessoa.

Nos últimos anos, contudo, assistimos a uma mudança importante. Surgiram medicamentos dirigidos a um dos mecanismos biológicos envolvidos na doença: a acumulação de beta-amiloide no cérebro.

Na União Europeia, o lecanemab (Leqembi) encontra-se autorizado para determinados doentes com défice cognitivo ligeiro ou demência ligeira causada pela doença de Alzheimer, com patologia amiloide confirmada e características genéticas específicas. Mais recentemente, o donanemab (Kisunla) foi também autorizado na União Europeia para uma população selecionada de pessoas numa fase inicial sintomática da doença. Estes medicamentos podem reduzir a acumulação de beta-amiloide e abrandar a progressão da doença em alguns doentes, mas não restauram as capacidades cognitivas já perdidas nem representam uma cura. Não estão indicados para todas as pessoas com doença de Alzheimer e exigem uma seleção cuidadosa dos doentes e monitorização médica, nomeadamente pelo risco de alterações imagiológicas relacionadas com a amiloide, conhecidas como ARIA, que podem incluir edema ou pequenas hemorragias cerebrais. São avanços importantes, mas mostram também que o tratamento da doença de Alzheimer continua a ter de ir muito além da medicação.

O exercício físico também faz parte do tratamento

Durante muito tempo, perante uma doença neurodegenerativa, poderia parecer contraditório falar de exercício físico. Hoje sabemos que não é. O exercício não cura a doença de Alzheimer nem substitui o tratamento farmacológico. No entanto, pode contribuir para preservar a capacidade física e funcional, ajudando a manter a força muscular, a mobilidade, o equilíbrio e a capacidade para realizar as atividades do dia a dia.

Na pessoa com demência, a Organização Mundial da Saúde recomenda programas de exercício físico 3 a 4 vezes por semana, durante 30 a 45 minutos por sessão e por períodos superiores a 12 semanas. Mas há uma diferença importante entre aconselhar uma pessoa a “mexer-se mais” e prescrever exercício.

Tal como acontece com um medicamento, o exercício físico tem uma frequência, uma intensidade, uma duração e um tipo. Além disso, deve ser adaptado à idade, às doenças existentes, à capacidade física, às alterações cognitivas e à fase da doença.

Que treino devemos fazer?

Para promover a saúde física e cerebral ao longo do envelhecimento, as recomendações atuais apontam para uma combinação de diferentes tipos de exercício.

Exercício aeróbio

Caminhar a um ritmo mais rápido, pedalar, nadar ou dançar são alguns exemplos. A intensidade deve ser adaptada à capacidade de cada pessoa. O exercício de intensidade moderada a vigorosa pode trazer benefícios para a saúde cerebral, desde que seja realizado em segurança.

Exercício de força

O treino dos principais grupos musculares é importante para preservar a massa e a força muscular. Levantar-se repetidamente de uma cadeira, realizar exercícios com bandas elásticas, pesos ou máquinas são algumas possibilidades.

Preservar a força muscular é particularmente importante com o avançar da idade porque influencia diretamente atividades tão simples — e tão importantes — como levantar-se de uma cadeira, subir escadas, caminhar ou transportar objetos.

Equilíbrio

O treino de equilíbrio deve também fazer parte do programa, sobretudo quando existe maior risco de queda. Pode incluir exercícios em diferentes bases de apoio, mudanças de direção, marcha com obstáculos ou outras tarefas progressivamente mais exigentes, sempre de acordo com a capacidade e segurança da pessoa.

Mobilidade e flexibilidade

Manter uma boa amplitude de movimento facilita atividades como vestir-se, alcançar objetos ou realizar os cuidados pessoais. No entanto, existe ainda uma dimensão particularmente interessante quando falamos de saúde cerebral.

O American College of Sports Medicine (ACSM) recomenda que o exercício destinado a promover a saúde cognitiva no envelhecimento inclua variedade, desafio cognitivo e interação social.

Caminhar por percursos diferentes, aprender uma sequência de movimentos, dançar, praticar Tai Chi ou realizar uma atividade física em grupo são exemplos de situações em que movimento, atenção, aprendizagem e interação social podem coexistir.

O melhor exercício será, muitas vezes, aquele que a pessoa consegue fazer em segurança, aprecia e consegue manter ao longo do tempo.

E quando já existe doença de Alzheimer?

Aqui, a prescrição deve ser ainda mais individualizada. Nas fases iniciais, muitas pessoas conseguem participar em programas de exercício semelhantes aos de outros adultos da mesma idade, eventualmente com algumas adaptações. À medida que surgem maiores dificuldades cognitivas ou funcionais, pode ser necessário simplificar as instruções, demonstrar os exercícios em vez de apenas os explicar verbalmente, manter rotinas consistentes e recorrer à supervisão de um familiar, cuidador ou profissional.

Também podemos adaptar o próprio exercício. Uma caminhada pode ser realizada num percurso conhecido. Os exercícios de força podem utilizar movimentos familiares, como levantar e sentar numa cadeira. O treino pode decorrer sempre no mesmo espaço e aproximadamente à mesma hora.

O objetivo deixa de ser apenas melhorar parâmetros de condição física. Passa também por preservar durante o maior tempo possível aquilo que a pessoa ainda consegue fazer.

Podemos prevenir a doença de Alzheimer?

Não existe atualmente nenhuma estratégia capaz de garantir que uma pessoa nunca desenvolverá doença de Alzheimer. A idade e determinados fatores genéticos não podem ser modificados, mas isso não significa que nada possa ser feito.

Em 2026, a Organização Mundial da Saúde atualizou as suas recomendações para a redução do risco de declínio cognitivo e demência e deixou uma mensagem particularmente importante: até 45% do risco de demência está associado a fatores potencialmente modificáveis, sobre os quais podemos atuar para prevenir ou adiar o aparecimento de demência.

Importa sublinhar que este valor diz respeito à demência em geral e não especificamente à doença de Alzheimer. E essa prevenção começa muito antes de surgirem os primeiros sintomas.

O que podemos fazer para proteger a saúde do nosso cérebro?

Algumas das medidas recomendadas são, na realidade, as mesmas que utilizamos para proteger a saúde cardiovascular e preservar a nossa capacidade física ao longo da vida:

  • manter uma vida fisicamente ativa;
  • não fumar;
  • evitar o consumo nocivo de álcool;
  • manter uma alimentação saudável e equilibrada;
  • controlar a tensão arterial, a diabetes e o colesterol;
  • manter um peso saudável;
  • corrigir a perda auditiva, utilizando aparelhos auditivos quando indicados;
  • manter-se cognitivamente ativo, continuando a aprender e a estimular o cérebro;
  • manter uma vida social ativa;
  • reduzir, sempre que possível, a exposição à poluição atmosférica.

As novas recomendações da OMS chamam ainda a atenção para algo que merece ser referido: não existe evidência que justifique tomar vitaminas B ou E, ómega-3 ou suplementos multivitamínicos e minerais com o objetivo de prevenir o declínio cognitivo ou a demência quando não existe uma deficiência diagnosticada. Ou seja, proteger o cérebro não passa por procurar um suplemento milagroso. Passa sobretudo por cuidar da saúde ao longo da vida.

Mover-se. Não fumar. Controlar os fatores de risco cardiovascular. Alimentar-se de forma equilibrada. Continuar a aprender. Ouvir melhor quando a audição começa a falhar. Manter relações sociais e continuar a participar na comunidade. Nenhuma destas medidas permite garantir que uma pessoa não desenvolverá doença de Alzheimer. Contudo, sabemos hoje que uma parte importante do risco de demência pode ser modificada.

Cuidar do cérebro começa muito antes de começarmos a perder a memória.

Quando preservar a autonomia também é tratar

Na doença de Alzheimer, tratar não pode significar apenas tentar preservar a memória. À medida que a doença progride, manter a pessoa ativa e preservar durante o maior tempo possível a capacidade de caminhar, levantar-se de uma cadeira, vestir-se, alimentar-se ou participar nas atividades que fazem parte da sua vida pode ter um enorme impacto. É aqui que a Medicina Física e de Reabilitação e a equipa de reabilitação podem desempenhar um papel importante. Avaliar a mobilidade e o risco de queda, prescrever exercício físico, adaptar atividades, recomendar produtos de apoio quando necessários e identificar barreiras existentes no ambiente são algumas das estratégias que podem contribuir para prolongar a autonomia.

Preservar autonomia não significa apenas conseguir executar uma tarefa. Significa também continuar a participar. Sair de casa. Caminhar. Estar com outras pessoas. Participar numa atividade. Manter rotinas. Continuar, durante o maior tempo possível, a fazer parte das decisões e da própria vida. Porque mesmo quando uma doença é progressiva, há função para preservar, capacidades para estimular e qualidade de vida para proteger.

Na doença de Alzheimer, cuidar da memória é importante. Mas preservar o movimento, a função e a autonomia também, é igualmente, importante.

Referências

  1. World Health Organization. Dementia.
    Ficha informativa da OMS sobre demência, epidemiologia, doença de Alzheimer e impacto funcional.
    https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dementia
  2. Alzheimer Europe. Prevalence of Dementia in Europe 2025.
    Relatório publicado em 2026 com estimativas atualizadas da prevalência de demência na Europa, incluindo Portugal.
    https://www.alzheimer-europe.org/resources/publications/prevalence-dementia-europe-2025
  3. World Health Organization. Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines, second edition. 2026.
    Recomendações atualizadas da OMS para redução do risco de declínio cognitivo e demência.
    https://www.who.int/publications/i/item/9789240123557
  4. World Health Organization. New WHO guidelines: up to 45% of dementia risk could be prevented or delayed. 2026.
    Resumo das principais recomendações e fatores de risco modificáveis.
    https://www.who.int/news/item/15-07-2026-new-who-guidelines–up-to-45–of-dementia-risk-could-be-prevented-or-delayed
  5. World Health Organization. Non-pharmacological interventions for people living with dementia.
    Recomendação de exercício físico 3–4 vezes por semana, 30–45 minutos por sessão, durante mais de 12 semanas.
    https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/treatment-care/mental-health-gap-action-programme/evidence-centre/dementia/cognitive-and-psychosocial-interventions
  6. European Medicines Agency. Leqembi (lecanemab).
    Informação europeia sobre indicação, autorização, segurança e monitorização do lecanemab.
    https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/leqembi
  7. European Medicines Agency. Kisunla (donanemab).
    Informação europeia sobre indicação, autorização e segurança do donanemab.
    https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/kisunla
  8. American College of Sports Medicine. Principles for Prescribing Exercise for Cognition in Older Adults. 2025.
    Princípios FITT para prescrição de exercício dirigido à saúde cerebral e cognição no envelhecimento.
    https://acsm.org/exercise-cognition-older-adults/
  9. American College of Sports Medicine. How to Prescribe Exercise for Brain Health. 2025.
    Enquadramento das recomendações de exercício para saúde cerebral e prevenção da demência.
    https://acsm.org/how-to-prescribe-exercise-for-brain-health-free/