Nunca me esquecerei daquela estrada. Era uma estrada de terra batida, no norte do Gana. De dois em dois dias, percorria-a de mota para visitar uma senhora amputada que vivia numa pequena aldeia rural. Não havia hospital. Não havia centro de saúde. Não havia ninguém que pudesse fazer os pensos de que precisava. Havia apenas uma mulher com uma ferida no coto que insistia em não cicatrizar.
Todas as vezes que chegava, ela recebia-me com um sorriso. Sentávamo-nos à sombra de uma árvore e, durante alguns minutos, fazia-lhe o penso. Era um gesto simples. Tão simples que, em Portugal, dificilmente lhe daríamos importância. Mas ali, aquele gesto significava muito mais. Significava controlar a infeção, aliviar a dor e permitir que a ferida cicatrizasse.
Na altura ainda não o sabia. Mas foi naquela estrada que começou, verdadeiramente, a minha viagem para a Medicina Física e de Reabilitação.
Quando entrei no curso de Medicina, imaginava que a missão de um médico era diagnosticar doenças, prescrever tratamentos e salvar vidas. Foi através dos projetos de voluntariado que realizei além fronteiras, em países em desenvolvimento, que descobri uma outra dimensão da medicina.
Percebi que, depois de tratar a doença, existe um desafio igualmente importante: ajudar a pessoa a recuperar a sua autonomia. Voltar a caminhar. Voltar a utilizar uma mão. Voltar a vestir-se sozinha. Voltar ao trabalho. Voltar a cuidar da família. Voltar a viver. Foi isso que aquelas viagens me ensinaram.
A senhora que visitava no Gana acabou por recuperar completamente da ferida. No entanto, a história não teve o final que eu desejava. Nunca chegou a utilizar uma prótese. Naquela região, conseguir uma prótese era praticamente impossível. Faltavam recursos, centros especializados e condições económicas. Continuou a deslocar-se com duas canadianas.
Foi a primeira vez que percebi que tratar uma doença não é o mesmo que devolver autonomia. Uma ferida pode cicatrizar. Uma cirurgia pode correr bem. Mas, quando não existem recursos para continuar o processo de reabilitação, a recuperação fica inevitavelmente incompleta.
Poucos dias depois vivi uma experiência completamente diferente.
Numa escola, um rapaz caiu enquanto brincava e apresentava uma deformidade evidente no punho. Precisávamos de confirmar o diagnóstico com uma radiografia. Seguimos numa carrinha de transporte coletivo até ao hospital mais próximo. Quando chegámos, disseram-nos que não existia equipamento de radiologia. Indicaram-nos outro hospital, a cerca de três horas de distância. Voltámos à estrada.
No segundo hospital confirmou-se uma fratura do rádio distal. Felizmente, não necessitava de cirurgia e bastava imobilizar o membro. Mas havia um novo problema. Aquele hospital não aplicava gessos. Foi necessário regressar ao primeiro hospital para que a tala fosse finalmente colocada. Uma lesão frequente, que em Portugal seria resolvida em poucas horas, transformou-se numa viagem de um dia inteiro entre dois hospitais.
O rapaz recuperou completamente. Nunca esquecerei a gratidão da família. Naquele momento percebi que o acesso aos cuidados de saúde pode ser tão importante como o próprio tratamento.
Durante a minha permanência no Gana conheci também várias pessoas que tinham sobrevivido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Tinham sobrevivido. Mas tinham ficado entregues a si próprias. Algumas caminhavam com enorme dificuldade. Outras já não utilizavam um braço. Outras dependiam da família para tarefas básicas. Muitas nunca tinham tido acesso a fisioterapia, terapia ocupacional ou qualquer programa de reabilitação. Via pessoas com potencial para recuperar. Mas faltava-lhes a oportunidade.
Foi então que compreendi uma ideia que ainda hoje me acompanha. Salvar uma vida é extraordinário. Mas, depois disso, começa muitas vezes outro trabalho igualmente importante: ajudar essa pessoa a voltar a viver essa vida.
Regressei a Portugal com muitas perguntas. Anos mais tarde, encontrei algumas respostas em Timor-Leste. Numa pequena comunidade rural conheci um homem com neurofibromatose que caminhava descalço, apoiando-se num pau de madeira demasiado curto para lhe dar estabilidade. Não existiam equipamentos sofisticados. Nem consultas especializadas. Nem produtos de apoio.
Ofereci-lhe um par de ténis e dois bastões de marcha adaptados à sua altura. Ensinei-lhe alguns exercícios simples para fortalecer os membros inferiores e melhorar o equilíbrio.
Não lhe podia retirar a doença. Mas podia ajudá-lo a caminhar com maior segurança e dignidade.
Percebi, mais uma vez, que nem sempre é a tecnologia que muda vidas. Muitas vezes é a capacidade de observar, adaptar e encontrar soluções com os recursos disponíveis.
Também em Timor-Leste encontrei pessoas com sequelas de AVC que apresentavam pé pendente. Sem ortóteses disponíveis, improvisei um sistema semelhante a um Foot-Up, utilizando tiras de velcro, elásticos e pequenos clips adquiridos num mercado local. Não era perfeito. Mas era funcional. Reduzia o risco de tropeçar e permitia caminhar com maior segurança.
Foi mais uma lição de humildade. A reabilitação nem sempre dispõe dos melhores recursos. Mas pode sempre procurar a melhor solução possível para aquela pessoa, naquele contexto.
Há, no entanto, uma imagem que nunca consegui esquecer. Na viagem entre Díli e Memo cruzei-me com várias crianças amputadas. Nenhuma utilizava prótese. Todas caminhavam apoiadas em canadianas axilares. Mais tarde explicaram-me que muitos daqueles casos resultavam de acidentes rodoviários. As estradas eram utilizadas não apenas pelos veículos, mas também como espaço de convívio das comunidades.
Enquanto continuava viagem, não conseguia deixar de olhar para aquelas crianças. A amputação não tinha terminado na cirurgia. Continuava presente em cada passo. Em cada obstáculo. Em cada limitação. Sem prótese. Sem reabilitação. Sem igualdade de oportunidades.
Foi talvez nesse momento que compreendi definitivamente porque queria ser Médica Fisiatra. Percebi que a Medicina Física e de Reabilitação não trata apenas músculos, nervos ou articulações. Trata projetos de vida. Procura devolver às pessoas aquilo que a doença ou a lesão lhes retirou: a possibilidade de serem independentes.
Hoje continuo a percorrer estradas. Já não são estradas de terra batida. São os corredores do hospital, os ginásios de reabilitação, as enfermarias e as salas de consulta. Mas, no fundo, a missão continua a ser exatamente a mesma. Todos os dias procuro ajudar alguém a recuperar um pouco da sua autonomia.
Foi longe de casa que descobri que queria ser Médica Fisiatra. Aprendi que o verdadeiro sucesso da medicina não se mede apenas pelo número de vidas que conseguimos salvar. Mede-se também pelo número de vidas que conseguimos ajudar a reconstruir.