Muitas pessoas acreditam que a reabilitação de um amputado só começa quando recebe uma prótese. Na realidade, começa muito antes. E esse período pode fazer toda a diferença no futuro.

 

Quando tudo muda

Perder um membro é um acontecimento que altera profundamente a vida de uma pessoa. Quer aconteça após um acidente, uma infeção grave, uma doença vascular ou um tumor, a amputação não representa apenas a perda de um braço ou de uma perna. Representa uma mudança na forma como a pessoa se movimenta, trabalha, cuida de si própria e se relaciona com os outros.

É natural que, nos primeiros dias, a maior preocupação seja uma: “Quando vou receber uma prótese?” É uma pergunta legítima.

Mas a resposta costuma surpreender. Porque a reabilitação já começou.

O primeiro passo não é a prótese

Ainda durante o internamento hospitalar inicia-se um trabalho fundamental. O objetivo é preparar o corpo — e também a pessoa — para aquilo que virá depois.

Nesta fase trabalham-se aspetos como:

  • controlo da dor;
  • vigilância da cicatrização da ferida cirurgica;
  • posicionamento correto do membro residual;
  • prevenção de retrações articulares (flexos);
  • fortalecimento muscular;
  • treino do equilíbrio;
  • mobilidade na cama e treino das transferências;
  • aprendizagem das atividades da vida diária.

Cada um destes passos contribui para que o futuro encaixe protésico seja mais fácil, confortável e eficaz.

O papel do Médico Fisiatra

O Médico Fisiatra avalia não apenas a amputação, mas toda a pessoa.

Perguntas como estas são essenciais:

  • Qual era o nível de atividade antes da amputação?
  • Quais são os objetivos do doente?
  • Existem outras doenças que possam interferir na recuperação?
  • Qual será o potencial funcional após a amputação?
  • Quando estará preparado para iniciar a protetização?
  • Que outros profissionais deverão integrar o programa de reabilitação?

A reabilitação é sempre individualizada. Não existem dois amputados iguais, mesmo quando o nível de amputação é semelhante.

Como é prescrita uma prótese?

A prótese não é um equipamento escolhido por catálogo. A sua prescrição é um ato médico e resulta de uma avaliação clínica detalhada.

O médico fisiatra define os componentes mais adequados para cada pessoa, tendo em consideração fatores como o nível da amputação, a qualidade do membro residual, a força muscular, o equilíbrio, a idade, a profissão, o nível de atividade física, o peso corporal e os objetivos funcionais. Não esquecendo a parte cognitiva, se o doente é capaz de aprender os procedimentos e cuidados que deverá ter com a prótese. Dependendo destas características, poderão ser prescritos diferentes tipos de encaixe, sistemas de suspensão, pés protésicos ou joelhos protésicos. Após a prescrição médica, o ortoprotésico constrói a prótese e realiza os ajustes necessários até obter um encaixe confortável, seguro e funcional.

A protetização é, por isso, um trabalho conjunto entre o médico fisiatra, o ortoprotésico e toda a equipa de reabilitação.

Quem paga a prótese?

Uma prótese pode representar um investimento significativo, mas isso não significa que o doente tenha obrigatoriamente de suportar esse custo. Em Portugal existem diferentes formas de financiamento, de acordo com a situação clínica e social de cada pessoa. Entre as principais encontram-se:

  • SAPA (Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio), que financia a maioria das próteses prescritas clinicamente;
  • IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional), em situações relacionadas com a integração ou manutenção da atividade profissional;
  • Subsistemas de saúde, como a ADSE, que podem comparticipar a aquisição da prótese;
  • Seguradoras, quando a amputação resulta de um acidente abrangido por uma apólice de seguro.

O médico fisiatra elabora toda a documentação clínica necessária para estes pedidos de financiamento e acompanha o processo até à protetização. O mais importante é que a escolha da prótese seja orientada pelas necessidades da pessoa e não apenas pelo seu custo.

Preparar o membro residual

Um dos aspetos mais importantes é cuidar corretamente do membro residual (coto). Um membro residual bem preparado permite:

  • melhor adaptação à prótese;
  • menor risco de lesões cutâneas;
  • maior conforto;
  • melhor distribuição das pressões;
  • maior estabilidade durante a marcha.

Nesta fase é fundamental garantir uma boa cicatrização da ferida cirúrgica, controlar o edema e reduzir o excesso de tecidos moles através da ligadura compressiva ou de outros sistemas de compressão. Todo este trabalho influencia diretamente o sucesso da futura protetização.

A força começa antes da marcha

É frequente pensar que os exercícios só começam depois da prótese. Na realidade devem começar logo após a cirurgia. Antes da protetização é importante fortalecer:

  • os membros superiores;
  • o tronco;
  • o membro inferior não amputado;
  • a musculatura do membro residual.

Também se trabalham os alongamentos, o equilíbrio, a coordenação, a resistência física e o treino funcional. Quanto melhor preparado estiver o corpo, mais fácil será aprender a utilizar a prótese.

A recuperação também é emocional

Há uma dimensão que nem sempre é visível. Aceitar uma amputação leva tempo. Cada pessoa vive este processo de forma diferente. Há quem queira saber imediatamente tudo o que vai acontecer. Há quem prefira ir descobrindo cada etapa aos poucos. Há dias de entusiasmo e dias de frustração. Por isso, a reabilitação não se limita ao corpo. Inclui também o apoio psicológico, o envolvimento da família e a definição de objetivos realistas. Recuperar significa reconstruir confiança.

A prótese é apenas o início

Receber a prótese é um momento muito esperado, mas não representa o fim da reabilitação. Representa o início de uma nova etapa. É a partir daí que começam meses de aprendizagem:

  • colocar e retirar corretamente a prótese;
  • cuidar da pele;
  • melhorar o equilíbrio;
  • aprender a caminhar;
  • subir e descer escadas;
  • ultrapassar diferentes obstáculos;
  • regressar ao trabalho;
  • retomar as atividades de lazer e o desporto.

Cada conquista resulta de muitas horas de treino.

O verdadeiro objetivo

Quando perguntamos a um doente qual é o seu objetivo, raramente responde: “Quero uma prótese.” O que normalmente ouvimos é:

“Quero voltar a levar os meus filhos à escola.”

“Quero voltar a trabalhar.”

“Quero passear o meu cão.”

“Quero voltar a conduzir.”

“Quero voltar a viver sozinho.”

É por isso que a reabilitação não tem como objetivo entregar uma prótese. Tem como objetivo devolver autonomia. E essa autonomia começa a ser construída muito antes de existir qualquer prótese.

Uma mensagem final

Na Medicina Física e de Reabilitação aprendemos que a recuperação não acontece de um dia para o outro. É feita de pequenas etapas, muitas vezes invisíveis para quem está de fora, mas decisivas para o resultado final.

Quando um amputado dá os primeiros passos com uma prótese, o que vemos é apenas o culminar de semanas ou meses de preparação, esforço e trabalho de uma equipa multidisciplinar.

Porque, na verdade, a reabilitação não começa quando a prótese chega. Começa no dia seguinte à cirurgia.