Um enfarte, uma cirurgia cardíaca ou o diagnóstico de uma doença do coração podem mudar, de um momento para o outro, a forma como uma pessoa olha para o seu corpo e para aquilo que é capaz de fazer.
Depois da alta hospitalar surgem frequentemente dúvidas:
Posso voltar a fazer exercício?
Até onde posso esforçar-me?
Posso voltar a trabalhar?
E se voltar a acontecer?
Recuperar de um problema cardíaco não significa apenas tratar o coração. Significa recuperar capacidade física, confiança, autonomia e qualidade de vida. É precisamente esse o objetivo da reabilitação cardíaca.
O enfarte em Portugal: mais de 10 mil internamentos num ano
Em Portugal, o enfarte agudo do miocárdio continua a ter um impacto importante. Segundo a Direção-Geral da Saúde, em 2023 registaram-se 10.608 episódios de internamento por enfarte agudo do miocárdio, o que corresponde, em média, a cerca de 29 internamentos por dia. Há, contudo, uma evolução positiva. Em 2017 tinham sido registados 13.379 episódios, pelo que entre 2017 e 2023 ocorreu uma redução de 20,7% nos internamentos por enfarte. No mesmo período, os óbitos ocorridos durante estes internamentos diminuíram de 1.000 para 705, uma redução de 29,5%. Estes números mostram-nos apenas uma parte da história.
Muitas pessoas sobrevivem hoje a um evento cardíaco e regressam a casa. E é precisamente aí que começa outra etapa do tratamento: recuperar capacidade física, controlar os fatores de risco, regressar às atividades habituais e procurar reduzir o risco de um novo evento cardiovascular. É aqui que entra a reabilitação cardíaca.
O que é a reabilitação cardíaca?
A reabilitação cardíaca é um programa estruturado e individualizado destinado a pessoas com doença cardiovascular ou que sofreram um evento cardíaco ou uma intervenção ao coração. É importante desfazer uma ideia: reabilitação cardíaca não é apenas exercício físico.
Inclui diferentes componentes, adaptadas às necessidades de cada pessoa: avaliação clínica e funcional, exercício físico prescrito, controlo dos fatores de risco cardiovascular, educação para a saúde, promoção de estilos de vida saudáveis, adesão ao tratamento e atenção à saúde psicológica e emocional. Esta abordagem ganhou particular atualidade em agosto de 2026, com a publicação das primeiras Guidelines da European Society of Cardiology exclusivamente dedicadas à reabilitação cardíaca. As novas recomendações definem-na como uma intervenção multicomponente e salientam a necessidade de cuidados individualizados e centrados na pessoa.
Quem pode beneficiar?
Durante muitos anos, a reabilitação cardíaca esteve sobretudo associada à recuperação após um enfarte do miocárdio. Hoje o seu campo de atuação é muito mais amplo.
Pode beneficiar pessoas após uma síndrome coronária aguda, angioplastia ou cirurgia de bypass, pessoas com insuficiência cardíaca e determinados doentes submetidos a intervenções valvulares. As novas recomendações alargam ainda a atenção a situações como algumas cardiopatias congénitas, fibrilhação auricular e pessoas submetidas a tratamentos oncológicos potencialmente cardiotóxicos.
A idade avançada, a fragilidade ou a existência de outras doenças não são, por si só, razões para excluir uma pessoa da reabilitação cardíaca. O programa deve ser adaptado à sua situação clínica e funcional.
Da cama do hospital ao regresso à vida quotidiana
A recuperação pode começar ainda durante o internamento, com mobilização precoce, recuperação progressiva das atividades e preparação para a alta. Depois de regressar a casa inicia-se uma etapa particularmente importante: recuperar a capacidade para o esforço e aprender estratégias que permitam controlar a doença e reduzir o risco cardiovascular. É nesta fase que o exercício estruturado assume um papel fundamental.
Mais tarde, o grande objetivo é transformar aquilo que foi aprendido durante a reabilitação num estilo de vida sustentável. Porque a reabilitação não termina quando acaba um programa. O objetivo é que a pessoa consiga manter-se fisicamente ativa e cuidar da sua saúde cardiovascular ao longo da vida.
Exercício físico: parte do tratamento
Depois de um problema cardíaco é compreensível que exista receio de fazer esforço. Algumas pessoas passam a evitar subir escadas, caminhar mais depressa ou regressar às atividades que realizavam anteriormente porque têm medo de exigir demasiado do coração. Mas, quando existe indicação clínica e é corretamente prescrito, o exercício físico faz parte do tratamento.
A questão não é simplesmente: “Pode fazer exercício?”
A pergunta certa é: “Que exercício é adequado para esta pessoa, com que intensidade e com que progressão?”
Antes de iniciar um programa é realizada uma avaliação da situação clínica e funcional. O treino poderá depois incluir exercício aeróbio, como caminhar ou pedalar, fortalecimento muscular e outras componentes adequadas às necessidades individuais.
Não existe uma intensidade igual para todos. É a combinação entre avaliação, prescrição, acompanhamento e progressão que permite utilizar o movimento como ferramenta terapêutica.
O coração não reabilita sozinho
Uma pessoa com doença cardiovascular pode ter outros problemas que condicionam a recuperação. Pode existir perda de força muscular depois de um internamento prolongado, diminuição da resistência ao esforço, alterações do equilíbrio, dor músculo-esquelética ou outras doenças que dificultem a prática de exercício. Também podem surgir medo, ansiedade, insegurança ou perda de confiança no próprio corpo. É por isso que a reabilitação cardíaca deve ser multidisciplinar.
Dependendo das necessidades da pessoa e da organização de cada programa, podem participar médicos de diferentes especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas, profissionais do exercício, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais de saúde.
A Medicina Física e de Reabilitação pode ter um papel particularmente relevante na avaliação funcional, sobretudo quando coexistem outras limitações que condicionam o movimento e exigem adaptação do exercício. Porque não existem apenas doenças diferentes. Existem pessoas diferentes com a mesma doença.
Recuperar mais do que capacidade física
Conseguir caminhar durante mais tempo ou realizar um esforço com menos cansaço é importante. Mas a recuperação não deve ser medida apenas em metros percorridos ou minutos de exercício.
Para alguém que sofreu um evento cardíaco, recuperar pode significar voltar a sair de casa sem medo, subir as escadas até ao apartamento, passear com os netos, regressar ao trabalho, viajar novamente, retomar uma atividade de que gostava ou simplesmente voltar a confiar no próprio corpo.
As novas recomendações europeias valorizam precisamente esta visão mais ampla. A evidência disponível mostra que a reabilitação cardíaca reduz hospitalizações e melhora a capacidade física, o funcionamento psicológico e a qualidade de vida.
Reabilitar também é prevenir
A reabilitação cardíaca não olha apenas para aquilo que já aconteceu. Olha também para aquilo que podemos tentar evitar no futuro. Por isso, deve abordar fatores de risco cardiovascular modificáveis, como o tabagismo, hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, excesso de peso, sedentarismo e hábitos alimentares. Inclui igualmente educação sobre a doença e promoção da adesão à terapêutica. O objetivo é que a pessoa adquira ferramentas para participar ativamente na gestão da sua saúde.
Reabilitação cardíaca em Portugal: ainda há caminho a percorrer
Este é um ponto que considero essencial no artigo: ter indicação para reabilitação cardíaca não significa necessariamente conseguir chegar a um programa. Existem barreiras relacionadas com referenciação, disponibilidade de programas, distância, transporte, atividade profissional e recursos dos próprios serviços. É precisamente por isso que as novas Guidelines europeias dão também atenção a diferentes modelos de prestação da reabilitação. Para pessoas adequadamente selecionadas, programas domiciliários apoiados por ferramentas digitais, monitorização remota e teleconsultas podem aumentar a flexibilidade e facilitar o acesso.
Aumentar o acesso à reabilitação cardíaca é importante porque sobreviver a um evento cardíaco é apenas o primeiro passo. É preciso criar condições para recuperar depois dele.
Depois de um problema cardíaco, pergunte
Se teve recentemente um enfarte, uma intervenção coronária, uma cirurgia cardíaca, insuficiência cardíaca ou outra doença cardiovascular, há uma pergunta que vale a pena colocar à equipa de saúde que o acompanha: “Tenho indicação para fazer reabilitação cardíaca?”
Nem todas as pessoas necessitam do mesmo programa. Mas todas devem ter a oportunidade de saber se podem beneficiar dele.
Voltar a mexer-se também é cuidar do coração
No Dia Mundial do Coração falamos frequentemente de prevenção: não fumar, controlar a tensão arterial e o colesterol, ter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física. Tudo isso é fundamental. Mas há também milhões de pessoas que já vivem com doença cardiovascular. Para elas, cuidar do coração não significa viver permanentemente com medo do esforço. Significa conhecer a sua condição, recuperar capacidade física e voltar progressivamente às atividades que dão sentido à vida.
Depois de um problema cardíaco, proteger o coração não significa deixar de se mexer. Significa aprender a voltar a mover-se com segurança.
Referências
Direção-Geral da Saúde. 10 Anos de Doença Cérebro Cardiovascular em Portugal. Lisboa: DGS, 2026. É daqui que retiramos os dados portugueses sobre internamentos e mortalidade hospitalar por enfarte. DGS
Consultar o relatório da DGS
European Society of Cardiology. 2026 ESC Guidelines on Cardiac Rehabilitation. Publicadas em 28 de agosto de 2026. Escardio
Consultar as Guidelines de Reabilitação Cardíaca
European Society of Cardiology. 2026 ESC Guidelines on Cardiac Rehabilitation — versão para doentes e familiares. É uma referência particularmente interessante para os leitores do Medicina em Movimento. Escardio
Consultar a versão para doentes e familiares
European Society of Cardiology. Apresentação das novas recomendações e principais mensagens sobre reabilitação cardíaca, 30 de agosto de 2026. Escardio
Consultar o resumo da ESC
World Heart Federation. World Heart Day 2026. O Dia Mundial do Coração assinala-se a 29 de setembro. Federação Mundial do Coração
World Heart Federation — World Heart Day