Mochila, postura, ergonomia e exercício físico: o que os pais devem saber

O regresso às aulas significa voltar aos livros, aos cadernos, aos computadores e à mochila. Significa também passar várias horas sentado na sala de aula, estudar ao computador ou no tablet e, por vezes, ter menos oportunidades para se movimentar ao longo do dia.

As crianças e os adolescentes estão em crescimento e as suas costas são diariamente sujeitas a estas exigências. Por isso, nesta altura do ano, vale a pena olhar não apenas para quanto pesa a mochila, mas sobretudo para a forma como é transportada, a ergonomia na sala de aula e em casa, a atividade física e alguns sinais a que os pais devem estar atentos.

As alterações posturais e a dor nas costas são também motivos frequentes de procura de consulta em crianças e adolescentes.

A mochila pode alterar a postura?

Pode.

Quando colocamos uma carga nas costas, o corpo realiza adaptações para manter o equilíbrio. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2023 concluiu que transportar uma mochila carregada pode provocar alterações da postura em pé e de alguns parâmetros da marcha em crianças e adolescentes. Curiosamente, quase todas as alterações estudadas não apresentaram uma relação significativa com o peso da mochila. Isto mostra-nos que a questão é mais complexa do que simplesmente:

“Quanto pesa a mochila?”

Importa também perceber como é utilizada. Uma mochila mal ajustada, afastada das costas ou transportada de forma inadequada pode obrigar a criança a adaptar a posição do tronco e da cabeça para manter o equilíbrio. O que pode conduzir a maior esforço muscular, fadiga ou desconforto. Isto não significa que a mochila esteja a “deformar” permanentemente a coluna. É importante distinguir uma adaptação postural à carga de uma deformidade estrutural da coluna vertebral.

E a cifose?

Quando observamos uma criança de lado, a coluna vertebral não é direita. Apresenta curvaturas fisiológicas, entre elas a cifose torácica.

Durante o transporte de uma mochila, a criança pode modificar a posição do tronco e da cabeça para compensar a carga. Uma postura mais curvada, com anteriorização da cabeça e dos ombros, pode tornar-se mais evidente. Mas uma atitude cifótica, flexível e corrigível, não é necessariamente uma hipercifose estrutural.

É precisamente por isso que, perante uma alteração marcada ou persistente da postura, não devemos limitar-nos a dizer à criança:

“Endireita as costas!”

É importante perceber o que está na sua origem.

Mais do que pesar a mochila, devemos olhar para a forma como é utilizada

Durante muitos anos, grande parte da discussão sobre mochilas escolares centrou-se no peso. É frequente encontrarmos a recomendação de que a mochila não deve ultrapassar aproximadamente 10% do peso corporal da criança. Esta pode ser uma referência prática, mas não deve ser interpretada como uma fronteira rígida entre um peso “seguro” e outro que provoca lesão.

A mensagem deve, portanto, ser mais abrangente: não devemos olhar apenas para o peso da mochila. Devemos olhar para a criança que a transporta e para a forma como a transporta.

Se precisa de alterar muito a postura para caminhar, tem dificuldade em colocar ou retirar a mochila, refere desconforto, cansaço ou considera a mochila demasiado pesada, é sensato rever a carga e a forma como está ajustada.

Como deve ser transportada a mochila?

Algumas regras simples podem melhorar a forma como a carga é transportada:

  • utilizar as duas alças, evitando transportar habitualmente a mochila apenas sobre um ombro;

  • ajustar as alças para que a mochila fique próxima das costas e não demasiado baixa;

  • escolher uma mochila adequada ao tamanho da criança;

  • colocar os objetos mais pesados mais próximos das costas;

  • distribuir o restante material de forma equilibrada;

  • retirar regularmente livros, cadernos e objetos que não são necessários nesse dia;

  • utilizar cacifos ou outras soluções disponibilizadas pela escola, quando existam;

  • estar atento à existência de dor, desconforto ou cansaço excessivo associados ao transporte.

Existe uma regra particularmente simples: uma criança não deve transportar todos os dias aquilo de que não precisa. Preparar a mochila na noite anterior demora poucos minutos e pode evitar a acumulação de material desnecessário.

E uma mochila com rodas?

Quando existe muito material para transportar, uma mochila com rodas ou trolley pode ser uma alternativa interessante.

Num estudo realizado com 53 crianças, os participantes caminharam sem carga, com uma mochila correspondente a 15% do seu peso corporal e puxando um trolley com exatamente a mesma carga. Transportar a mochila provocou maiores alterações da cinemática da marcha do que puxar o trolley. Quando utilizavam o trolley, o padrão de marcha das crianças aproximava-se mais daquele observado quando caminhavam sem carga. 

Outro estudo comparou mochila e trolley com cargas correspondentes a 10%, 15% e 20% do peso corporal. Os investigadores observaram que puxar o trolley exigia apenas pequenas adaptações da marcha, mesmo quando a carga aumentava. Do ponto de vista exclusivamente cinemático, os autores propuseram evitar cargas superiores a 10% do peso corporal na mochila e superiores a 20% no trolley. 

Estes resultados não significam que devemos carregar um trolley até 20% do peso da criança. O objetivo continua a ser evitar transportar material desnecessário. Também devemos ter em conta que os estudos foram realizados essencialmente durante a marcha em superfície plana e em condições controladas.

Na vida real existem escadas, lancis e outros obstáculos. Se a criança tiver de levantar frequentemente o trolley para subir escadas, parte da vantagem pode desaparecer.

Além disso, puxar um trolley é uma tarefa assimétrica. A pega deve estar adaptada à altura da criança e é aconselhável não utilizar sistematicamente o mesmo braço para o puxar.

Assim, quando existe muito material para transportar e o percurso é predominantemente plano, o trolley pode ser uma alternativa à mochila, particularmente numa criança que apresenta desconforto ou alterações importantes da postura durante o transporte da carga.

Mas a primeira pergunta deve continuar a ser: É mesmo necessário transportar todo este material entre casa e a escola?

Ergonomia na sala de aula: a cadeira também deve crescer com o aluno

Falamos muito da mochila, mas existe outro fator que acompanha a criança durante muito mais tempo: a mesa e a cadeira onde passa várias horas por dia.

Crianças e adolescentes da mesma turma podem ter alturas e proporções corporais muito diferentes, enquanto o mobiliário disponível é frequentemente igual para todos.

Porque é importante adaptar a cadeira e a mesa?

Imagine uma criança pequena sentada numa cadeira demasiado alta. Se os pés não chegam ao chão, ficam sem um apoio adequado. Por outro lado, uma criança alta numa cadeira demasiado baixa terá de adaptar a posição dos membros inferiores e do tronco.

O mesmo acontece com a mesa. Uma superfície de trabalho demasiado alta pode obrigar a elevar os ombros durante a escrita. Se estiver demasiado baixa, pode favorecer uma maior inclinação do tronco e do pescoço.

Por isso, sempre que possível:

  • os pés devem ficar apoiados no chão ou num apoio;

  • a cadeira deve permitir uma posição confortável e apoio das costas;

  • a altura da mesa deve permitir escrever sem manter os ombros elevados;

  • deve existir espaço suficiente para posicionar confortavelmente os membros inferiores;

  • o material utilizado deve estar suficientemente próximo para evitar posições forçadas;

  • mesas e cadeiras devem, idealmente, estar disponíveis em tamanhos adequados à estatura dos alunos.

Computadores e tablets também fazem parte da ergonomia escolar

Hoje, falar de ergonomia escolar significa inevitavelmente falar de ecrãs. Um computador portátil ou um tablet colocado demasiado baixo pode favorecer períodos prolongados com a cabeça e o pescoço inclinados para a frente. Quando estes equipamentos são utilizados durante períodos mais longos, devemos procurar uma posição confortável, evitar trabalhar continuamente com o dispositivo sobre o colo e fazer pausas regulares. Mas existe uma mensagem ainda mais importante: uma boa ergonomia não significa permanecer imóvel numa postura “perfeita”.

As crianças precisam de mudar de posição, levantar-se e movimentar-se ao longo do dia. A ergonomia não deve ensinar uma criança a ficar quieta e direita durante horas. Deve criar condições para que esteja confortável e possa movimentar-se

E em casa?

Os mesmos princípios devem ser aplicados ao local onde a criança faz os trabalhos de casa. Estudar durante horas à mesa da cozinha, no sofá ou na cama, sobretudo utilizando um computador portátil ou tablet, pode favorecer posições pouco confortáveis mantidas durante demasiado tempo. Não é necessário criar um espaço sofisticado.

Uma cadeira e uma mesa adequadas à altura da criança, os pés apoiados, o material corretamente posicionado e boas condições de iluminação são um bom ponto de partida. E, mais uma vez, devemos evitar a obsessão por uma postura perfeita.

Mais importante do que permanecer sempre na mesma “boa postura” é variar a posição e movimentar-se regularmente.

 

Exercício físico: uma parte essencial da saúde da coluna

Quando uma criança apresenta uma postura mais cifótica ou os pais começam a reparar que está frequentemente “curvada”, é natural que tentem corrigi-la. Mas dizer repetidamente “põe-te direito” dificilmente resolve o problema.

O exercício físico permite trabalhar capacidades importantes para a postura e para a função: força e resistência muscular, mobilidade, coordenação, controlo do tronco e consciência corporal. Além disso, ajuda a contrariar longos períodos de comportamento sedentário e melhora a condição física global.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças e adolescentes entre os 5 e os 17 anos realizem, em média, pelo menos 60 minutos por dia de atividade física de intensidade moderada a vigorosa ao longo da semana, predominantemente aeróbia. Atividades de intensidade vigorosa, assim como aquelas que fortalecem músculos e ossos, devem ser incluídas pelo menos três dias por semana.  Por isso, quando pensamos em proteger as costas de uma criança, devemos pensar para além da mochila: menos tempo imóvel e mais movimento.

A natação é frequentemente recomendada quando existem preocupações relacionadas com a postura e pode ser uma excelente forma de atividade física para crianças e adolescentes. Trabalha grandes grupos musculares, exige controlo do tronco, desenvolve a capacidade cardiorrespiratória e permite realizar exercício com baixo impacto.

Mas é importante esclarecer uma ideia muito difundida: a natação não deve ser considerada um tratamento universal para “corrigir a postura” nem o desporto obrigatório para quem tem problemas na coluna. Isto não retira valor à natação enquanto atividade física.

Nadar pode ser uma excelente opção — sobretudo se a criança gosta de nadar. Tal como podem ser boas opções a ginástica, a dança, o atletismo, os desportos coletivos, a escalada ou muitas outras modalidades. Mais importante do que procurar um único “desporto para as costas” é encontrar uma atividade adequada à criança, que desenvolva diferentes capacidades físicas e, sobretudo, que seja suficientemente agradável para ser praticada regularmente.

Quando existe uma alteração postural específica ou dor, poderá ser necessário complementar a atividade desportiva com exercício terapêutico individualizado, de acordo com a avaliação clínica.

Pais: olhem para as costas dos vossos filhos

Há outro cuidado simples que não custa nada. De vez em quando, observe as costas do seu filho. Procure perceber se:

1. Um ombro está mais alto do que o outro;

2. Uma omoplata parece mais saliente;

3. Existe assimetria da cintura ou das ancas;

4. O tronco parece inclinado para um dos lados;

5. Existe uma curvatura das costas muito acentuada quando observado de perfil.

Pode ainda pedir à criança ou adolescente que, com os joelhos esticados, se incline lentamente para a frente e observar se um dos lados das costas fica mais elevado do que o outro. Este é o princípio do teste de Adams, utilizado na avaliação clínica da escoliose.

Um mito importante: a mochila não provoca escoliose

Uma mochila pode influenciar a postura enquanto é transportada, mas não provoca Escoliose Idiopática do Adolescente. A Escoliose Idiopática do Adolescente é uma deformidade tridimensional da coluna vertebral que surge durante o crescimento. Também não é causada simplesmente por a criança se sentar “mal”. No entanto, a idade escolar coincide com o período em que a escoliose pode surgir e progredir. Por isso, se observar uma assimetria dos ombros, das escápulas ou da cintura, uma inclinação do tronco ou uma assimetria evidente quando o seu filho se inclina para a frente, vale a pena procurar avaliação médica.

Quando devemos procurar avaliação médica?

Uma dor ocasional depois de um dia particularmente exigente é diferente de uma dor que persiste ou começa a interferir com o dia a dia. Procure avaliação médica se a criança ou adolescente apresentar:

  • dor nas costas persistente, recorrente ou progressiva;

  • dor que interfere com as atividades habituais;

  • dor noturna ou que acorda a criança;

  • alterações persistentes ou progressivas da postura;

  • assimetria dos ombros, escápulas, cintura ou tronco;

  • alterações da marcha;

  • fraqueza, alterações da sensibilidade ou outros sintomas neurológicos.

Nestes casos, é importante perceber se estamos perante uma alteração postural, uma situação músculo-esquelética ou uma alteração da coluna que necessita de avaliação específica.

Antes de sair para a escola: uma verificação rápida

Antes de a criança sair de casa, faça algumas perguntas simples:

Precisa de tudo o que está dentro da mochila?

Está a utilizar as duas alças?

A mochila está bem ajustada e próxima das costas?

Os objetos mais pesados estão junto ao corpo?

Consegue transportá-la confortavelmente sem alterar excessivamente a postura?

Se transporta muito material, um trolley poderá ser uma alternativa adequada ao percurso que faz?

E acrescente uma última pergunta: Quanto tempo vai passar hoje a movimentar-se?

Porque cuidar das costas das crianças e dos jovens não significa apenas pesar uma mochila.

Significa transportá-la corretamente, evitar carga desnecessária, proporcionar um ambiente escolar ergonomicamente adequado, permitir mudanças frequentes de posição e incentivar a atividade física regular.

A mochila faz parte da escola. A dor não tem de fazer.

 

Referências

1. Cuenca-Martínez F, Varangot-Reille C, Calatayud J, et al. The Influence of the Weight of the Backpack on the Biomechanics of the Child and Adolescent: A Systematic Review and Meta-analysis With a Meta-Regression. Pediatric Physical Therapy. 2023;35(2):212–226.
DOI: 10.1097/PEP.0000000000000996
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36989048/

2. Yamato TP, Maher CG, Traeger AC, Williams CM, Kamper SJ. Do schoolbags cause back pain in children and adolescents? A systematic review. British Journal of Sports Medicine. 2018;52(19):1241–1245.
DOI: 10.1136/bjsports-2017-098927
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29720469/
https://bjsm.bmj.com/content/52/19/1241

3. Orantes-Gonzalez E, Heredia-Jimenez J, Beneck GJ. Children require less gait kinematic adaptations to pull a trolley than to carry a backpack. Gait & Posture. 2017;52:189–193.
DOI: 10.1016/j.gaitpost.2016.11.041
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27915223/

4. Orantes-Gonzalez E, Heredia-Jimenez J, Robinson MA. A kinematic comparison of gait with a backpack versus a trolley for load carriage in children. Applied Ergonomics. 2019;80:28–34.
DOI: 10.1016/j.apergo.2019.05.003
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31280807/
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003687019300821

5. Macedo AC, Morais AV, Martins HF, Martins JC, Pais SM, Mayan OS. Match between classroom dimensions and students’ anthropometry: re-equipment according to European educational furniture standard. Human Factors. 2015.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25790570/

6. World Health Organization. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO; 2020.
https://www.who.int/publications/i/item/9789240014886

7. Zaina F, Donzelli S, Lusini M, Minnella S, Negrini S. Swimming and spinal deformities: a cross-sectional study. Journal of Pediatrics. 2015;166(1):163–167.
DOI: 10.1016/j.jpeds.2014.09.024
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25444007/

8. Scoliosis Research Society. Adolescent Idiopathic Scoliosis.
https://www.srs.org/Patients/Conditions/Scoliosis/Idiopathic-Scoliosis

Leitura adicional sobre o uso de Trolley

Orantes-Gonzalez E, Heredia-Jimenez J. Pulling a school trolley: A good kinematic option for children. Gait & Posture. 2017;53:61–66.
DOI: 10.1016/j.gaitpost.2017.01.012
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28110165/